Imagem: Reprodução | E-Commerce Brasil
A cada nova onda tecnológica, reaparecem as profecias do fim do pensamento humano. Com a inteligência artificial, não foi diferente. Desde que ferramentas como o ChatGPT se tornaram populares, vozes alarmadas se apressaram em decretar: “usar IA deixa as pessoas burras”. A frase circula com força nas redes, embalada por manchetes que priorizam o susto ao em vez da análise. Mas repetir esse tipo de alerta, sem aprofundamento, diz mais sobre nossa resistência à mudança do que sobre a tecnologia em si.
Uso passivo e seus efeitos
O estudo mais citado para sustentar esse argumento foi conduzido pelo MIT, que mediu a atividade cerebral de participantes enquanto realizavam tarefas de escrita, com e sem o apoio de IA generativa. De fato, os que usaram o ChatGPT de forma totalmente passiva, apenas copiando ou aceitando as sugestões da ferramenta, apresentaram menor conectividade cerebral, especialmente nas faixas alfa e beta, ligadas ao engajamento cognitivo. O resultado foi previsível: menos esforço mental, maior propensão ao esquecimento e textos com baixo grau de originalidade.
O que passou batido em boa parte das interpretações, no entanto, foi a segunda metade da pesquisa. Participantes que começaram escrevendo sozinhos e só depois recorreram à IA para revisar, complementar ou melhorar seus textos apresentaram justamente o oposto: maior ativação cerebral, especialmente nas áreas ligadas à memória e à atenção. Esse grupo demonstrou mais envolvimento com o conteúdo, produziu ideias mais criativas e utilizou a tecnologia como uma extensão do próprio pensamento, não como um atalho.
Abordagem inteligente da IA
A diferença está no modo de uso. A IA não é mágica, mas também não é vilã. Quando tratada como parceira de raciocínio, e não como substituta do esforço, ela pode ampliar, e muito, a capacidade humana de pensar, criar e resolver problemas. Um copiloto criativo, como algumas plataformas bem definem: ela auxilia, sugere, provoca, mas não dirige sozinha. Quem lidera o processo continua sendo o usuário.
Essa visão não é exclusiva dos pesquisadores do MIT. Um levantamento da Universidade de Stanford indicou que equipes que usaram IA generativa para resolver tarefas complexas tiveram um salto de até 40% na produtividade e registraram avanços significativos em criatividade e tomada de decisão. O diferencial estava, mais uma vez, na abordagem: usar a IA para expandir ideias, e não para delegar o raciocínio por completo.
A tentação de responsabilizar a tecnologia por nossos próprios atalhos é antiga. A IA não nos deixa mais burros por si só, ela apenas evidencia quem já desistiu de pensar. Quem confia cegamente na resposta pronta, sem refletir, acaba aceitando o mínimo. Mas quem encara a inteligência artificial como um novo espaço para testar hipóteses, reescrever ideias e aprender com o processo encontra nela uma ferramenta potente, talvez a mais poderosa já desenvolvida para o pensamento humano. No fim das contas, a IA pode, sim, ser usada de forma rasa e improdutiva. Mas culpar a ferramenta é como criticar um lápis por um texto mal escrito. A responsabilidade segue com quem segura o lápis, ou, nesse caso, o teclado.
Fonte: E-Commerce Brasil