Por Régis de Oliveira Júnior
O envelhecimento populacional deixou de ser uma tendência estatística e passou a pressionar a gestão pública cotidiana. Em 2026, o Brasil ultrapassa 31 milhões de pessoas com mais de 60 anos, e Minas Gerais ocupa posição central nesse cenário ao concentrar uma das maiores populações idosas do país e o maior número de municípios. A longevidade avança. A rede de convivência física, não.
Nesse vazio social, empresas de inteligência artificial de companhia expandem modelos baseados em avatares conversacionais que prometem escuta permanente e resposta imediata. O mercado vende conforto emocional.
O Estado herda o custo do isolamento prolongado. Quando o algoritmo ocupa o lugar do encontro humano, o efeito surge no adoecimento e no orçamento público.
Dados consolidados do Ministério da Saúde indicam que, em 2026, o custo anual do tratamento de complicações associadas à depressão em idosos, incluindo internações por quedas, agravamento cognitivo e uso contínuo de medicamentos, superou R$ 5 bilhões no Sistema Único de Saúde (SUS). Não se trata de abstração técnica. Trata-se de despesa recorrente, previsível e evitável.
Minas Gerais sente esse impacto com intensidade. Prefeituras enfrentam aumento de demandas judiciais em saúde mental que drenam recursos do piso da proteção social básica. Verbas que poderiam sustentar centros de convivência, visitas domiciliares e programas comunitários acabam deslocadas para internações e judicialização tardia do cuidado.
Temos idosos com conexão 5G de última geração, mas que passam semanas sem ouvir a voz de uma pessoa real.
O problema não está na tecnologia em si, mas na forma como o poder público permite sua substituição simbólica do cuidado territorial. Centros de convivência, de baixo custo e alta eficácia contra o isolamento, foram trocados por assinaturas de aplicativos caros, solitários e sem validação clínica de longo prazo.
O Relatório de Vulnerabilidade Digital da Pessoa Idosa 2025/26, da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), aponta que 40% dos idosos que utilizam inteligências artificiais de companhia compartilham dados sensíveis de saúde e estado emocional sem compreender que essas informações alimentam modelos comerciais. O dado revela assimetria informacional grave e exploração silenciosa da vulnerabilidade.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já alertou que tecnologias que simulam empatia não constroem pertencimento duradouro nem reduzem sofrimento crônico. O alívio momentâneo não substitui o vínculo. O corpo reage ao isolamento. A mente adoece. O sistema público paga.
O contraste com os usos responsáveis da inteligência artificial é evidente. No SUS, algoritmos auxiliam na leitura de exames, na organização de filas e na auditoria clínica, sempre sob supervisão humana. Em programas de inclusão digital, a tecnologia aproxima e devolve a autonomia. Quando se transforma em mercadoria de afeto, produz dependência e custo social.
O Marco Legal da Inteligência Artificial avançou, mas sua regulamentação falhou ao não enquadrar sistemas de inteligência artificial de estímulo emocional como de alto risco para grupos vulneráveis. Essa lacuna permite que o mercado avance enquanto o Estado reage de forma tardia.
Uma resposta viável exige decisão política clara. A criação de uma contribuição regula-tória específica sobre inteligências artificiais de companhia de estímulo emocional, com arrecadação vinculada ao Fundo Nacional do Idoso, permitiria financiar centros físicos de convivência, escuta ativa e cuidado territorial. O recurso entra onde o dano começa e retorna onde a prevenção funciona.
O Brasil de 2026 precisa escolher. Ou trata a solidão como externalidade fiscal concreta e investe em presença humana, ou seguirá pagando, em sofrimento e orçamento, o preço da terceirização do cuidado.
Régis de Oliveira Júnior é jornalista formado pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), especialista em Inteligência Artificial pela ESPM Tech e vencedor de 16 premiações nacionais de jornalismo. Atuou em gestão pública como secretário de Saúde e de Comunicação, interventor em hospitais públicos e consultor no Ministério de Minas e Energia no DF, na ALMG e em prefeituras do RS e de MG.
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião”
Fonte: Hoje em Dia







