Imagem: Envato
O relógio está correndo. A discussão sobre o fim da jornada 6×1 e a redução da semana de trabalho para 36 horas deixou de ser pauta sindical para se tornar risco financeiro mensurável. O BTG Pactual calculou que a mudança geraria um aumento de 14,6% no custo de pessoal e um impacto de R$ 22,2 bilhões por mês nas empresas brasileiras, conforme relatório de março de 2026. Para o varejo, o número é ainda mais brutal. A FecomercioSP estima que o custo do trabalho no setor subiria 22%, e não é difícil entender por quê: 89% dos trabalhadores do varejo são contratados no regime 6×1, segundo levantamento divulgado pela federação em fevereiro de 2026. Nenhum outro setor da economia está tão exposto.
Diante disso, a maioria dos gestores pensa em uma saída: repassar para o preço. É o caminho mais óbvio e, provavelmente, o mais perigoso. A Confederação Nacional do Comércio já projeta alta de até 13% nos preços ao consumidor como efeito da mudança, com custo adicional estimado em R$ 122,4 bilhões ao ano para a folha do setor comercial, segundo parecer publicado em fevereiro de 2026. Quem repassar vai perder mercado. Quem absorver sem estratégia vai perder margem. A terceira via, que é reestruturar a base de custos, é a única que sobrevive nos dois cenários.
Para entender por que o setor elétrico entra nessa equação, é preciso antes olhar para o tamanho do problema energético no varejo, que permanece crônico e subgerenciado. A Associação Brasileira de Supermercados revela que a conta de energia já supera as despesas com aluguel no setor supermercadista, sendo a segunda maior despesa das redes, atrás apenas da folha salarial. Dados da Way2 Technology em parceria com a Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo indicam que energia representa entre 1% e 2% do faturamento no varejo geral, com a refrigeração respondendo por até 40% do consumo total de supermercados. Em redes com dezenas ou centenas de unidades, esses percentuais representam dezenas de milhões de reais por ano gerenciados, na maior parte das vezes, de forma passiva.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) calculou que mesmo a transição mais conservadora, de 44 para 40 horas semanais, representaria aumento de 7,84% na folha salarial, com impacto de aproximadamente 2,35% sobre o faturamento bruto de empresas típicas, conforme análise da instituição com base nos microdados da RAIS. Esse é exatamente o intervalo em que a gestão energética competente consegue atuar. Não é coincidência. É matemática.
A primeira frente de ação é também a mais negligenciada: a eficiência energética dentro das próprias unidades. Intervenções em sistemas de refrigeração, climatização e iluminação LED podem reduzir o consumo total entre 15% e 35%, segundo estudos aplicados ao setor. Trata-se da única alavanca de redução de custo que opera de forma permanente, sem exposição à volatilidade tarifária e sem dependência de contratos externos. Qualquer estratégia energética consistente começa aqui, não no contrato com uma comercializadora.
A segunda frente é a geração distribuída solar, que passou da fase experimental para a implantação em escala nas redes de varejo. A rede Covabra, uma das maiores do interior paulista, implementou geração solar em sua unidade de Limeira com expectativa de 45% de autossuficiência energética na loja e 25% no centro de distribuição. Os modelos de contratação variam desde a assinatura sem investimento inicial até a instalação própria, com retorno típico entre três e sete anos dependendo da configuração. Contratos mal calibrados, no entanto, geram créditos de energia não aproveitados e comprometem a eficiência econômica do projeto. A tecnologia está madura; o dimensionamento precisa ser rigoroso.
A terceira frente é o mercado livre de energia, e os dados de adoção recente indicam que o varejo está atrasado em relação a outros setores. Em 2024, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) registrou a migração de 26.834 novos consumidores para o ambiente de contratação livre, recorde histórico que representa uma triplicação do mercado em um único ano, segundo relatório da entidade. O ambiente já responde por 37% do consumo total de energia elétrica do Brasil. A economia potencial é documentada: é possível reduzir a conta em até 30% em relação à tarifa cativa, conforme dados da própria CCEE. A Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia estima que o mercado livre gerou R$ 55 bilhões de economia para consumidores apenas em 2024 e R$ 476 bilhões acumulados desde 2003, conforme publicação de fevereiro de 2025. Desde janeiro de 2024, todos os consumidores do Grupo A com demanda a partir de 500 kW podem migrar. Redes com múltiplas unidades, somadas em demanda, têm acesso a esse instrumento e ainda subutilizam o recurso.
O alerta precisa ser feito com clareza. O mercado livre exige gestão ativa, e decisões mal estruturadas expõem o consumidor à volatilidade do Preço de Liquidação das Diferenças, o preço spot da energia elétrica, que varia de forma significativa conforme hidrologia, temperatura e despacho térmico. Entrar no mercado livre sem gestão de portfólio e sem disciplina contratual transforma oportunidade em risco financeiro. Da mesma forma, geração distribuída, eficiência energética e mercado livre não são soluções equivalentes nem intercambiáveis. Cada uma possui perfil de risco, complexidade e horizonte de retorno distintos. Tratá-las como uma única oferta de “energia mais barata” é o caminho mais curto para o prejuízo.
Quando aplicadas de forma integrada e sequenciada, contudo, essas três frentes criam um efeito acumulado capaz não apenas de neutralizar o impacto do aumento da folha salarial, mas de gerar ganho líquido sobre o patamar atual de custos. Não é promessa. É aritmética verificável nos demonstrativos de quem já executou.
A reforma trabalhista em discussão ainda não tem data definitiva, mas o setor não pode esperar o texto final para agir. O ciclo de implantação de soluções energéticas, da auditoria ao contrato ativo no mercado livre, leva de seis meses a um ano. Redes que iniciarem o processo agora chegarão ao momento da mudança com a base de custos já reestruturada. As que esperarem vão negociar às pressas, em condições piores, com margem já comprimida.
A conta está posta. O varejo que não tratar a gestão energética com a mesma seriedade com que gerencia a folha de pagamento vai pagar duas vezes pela mesma mudança: uma vez no departamento pessoal, outra vez na conta de luz.
Felipe Nunes Barroso é fundador da FNB Energia Estratégica e mestre em Gestão da Competitividade pela FGV EAESP.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Fonte: Mercado&Consumo







