Não é gordura localizada: doença que afeta milhões de mulheres causa dor, inchaço e não melhora com dieta

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Lipedema afeta cerca de 10% mulheres, mas ainda é um problema pouco conhecido  Crédito: (Imagem: New Africa | Shutterstock)

Muitas mulheres passam anos tentando emagrecer pernas, quadris ou braços sem entender por que a gordura dessas regiões parece resistir a dietas e exercícios. Em alguns casos, a explicação pode não estar na alimentação, na falta de atividade física ou na genética isoladamente, mas em uma doença ainda pouco conhecida: o lipedema.

Crônica e progressiva, a condição provoca o acúmulo anormal de gordura, principalmente nos membros inferiores e superiores, além de sintomas como dor, inchaço, sensibilidade ao toque e sensação constante de peso nas pernas. Apesar de afetar milhões de mulheres em todo o mundo, o problema ainda é frequentemente confundido com obesidade, retenção de líquido ou simples gordura localizada, o que contribui para atrasos no diagnóstico e no tratamento.

Segundo o médico integrativo Rodolfo Gusmão, do Instituto Aeon, o lipedema vai muito além de uma questão estética. “Muitas mulheres convivem durante anos com dor, sensação de peso nas pernas e dificuldade para emagrecer determinadas regiões do corpo sem saber que possuem lipedema. É uma condição que precisa ser vista além da estética, porque afeta o metabolismo, a circulação e o bem-estar físico e emocional”, afirma.

A dermatologista Paula Góes explica que um dos principais desafios é justamente reconhecer os sinais da doença ainda nas fases iniciais. “O lipedema costuma causar aumento desproporcional dos membros inferiores, além de dor ao toque, hematomas frequentes e sensação constante de inchaço. Muitas pacientes acreditam que é apenas gordura localizada ou dificuldade para emagrecer, quando na verdade existe um quadro inflamatório associado”, diz.

Quando desconfiar

Entre os sintomas mais comuns estão dor nas pernas, sensação de peso, inchaço ao longo do dia, facilidade para desenvolver hematomas e acúmulo de gordura resistente à dieta e à prática de exercícios físicos. Uma característica que ajuda os especialistas a diferenciar o lipedema de outras condições é que os pés costumam permanecer preservados, mesmo quando há aumento significativo do volume das pernas.

Com a progressão da doença, a pele também pode sofrer alterações. “Em fases mais avançadas, a pele pode apresentar irregularidades, maior flacidez e aspecto nodular devido ao acúmulo de gordura de forma desorganizada e ao processo inflamatório contínuo”, explica Paula Góes.

Embora fatores genéticos e hormonais tenham forte influência no desenvolvimento do lipedema, alguns hábitos podem agravar os sintomas. Alimentação rica em ultraprocessados, excesso de açúcar, sedentarismo, alterações hormonais e estresse estão entre os principais fatores associados à piora do quadro.

Segundo Rodolfo Gusmão, controlar a inflamação do organismo é uma das estratégias mais importantes para reduzir o impacto da doença. “O tratamento envolve redução do processo inflamatório através da alimentação, melhora da circulação, atividade física orientada e estratégias para restaurar a saúde metabólica. Quando o organismo funciona melhor, a paciente sente menos dor, menos inchaço e mais disposição”, afirma.

Por isso, especialistas costumam recomendar uma alimentação rica em vegetais, proteínas magras, alimentos antioxidantes e hidratação adequada, além da redução do consumo de alimentos considerados inflamatórios. O médico destaca ainda que novas abordagens terapêuticas vêm sendo estudadas. “Estudos recentes vêm mostrando que o tratamento do lipedema com microdoses de tirzepatida pode ser um grande aliado no combate ao processo inflamatório causado pela doença”, afirma.

Tratamento ajuda a controlar os sintomas

Embora não tenha cura, o lipedema possui tratamento e controle. A abordagem varia de acordo com o estágio da doença e as características de cada paciente. Entre os recursos mais utilizados estão drenagem linfática, uso de meias compressivas, exercícios físicos de baixo impacto e tecnologias voltadas para melhora da circulação e redução do inchaço.

Segundo Paula Góes, alguns procedimentos também podem contribuir para melhorar a textura da pele e o conforto das pacientes. “Além do controle inflamatório, muitas mulheres procuram melhorar a textura da pele e a sensação de peso nas pernas. Hoje existem protocolos que ajudam tanto na parte funcional quanto na estética”, explica. Atividades como caminhada, musculação, pilates e hidroginástica também costumam ser recomendadas por ajudarem a estimular a circulação e preservar a massa muscular sem sobrecarregar as articulações.

O impacto emocional da doença

Para muitas pacientes, os efeitos do lipedema vão além dos sintomas físicos. A dificuldade de obter resultados mesmo com dieta e exercícios frequentemente gera frustração, culpa e impacto na autoestima. “Muitas mulheres passaram anos ouvindo que faltava esforço ou disciplina, quando na verdade conviviam com uma condição médica real. O acolhimento e o diagnóstico correto fazem toda diferença para que a paciente entenda seu corpo e consiga tratar o problema de maneira saudável”, destaca Rodolfo Gusmão.

Os especialistas reforçam que o diagnóstico deve ser feito por profissionais capacitados e que o tratamento costuma envolver uma equipe multidisciplinar, formada por médicos, nutricionistas, fisioterapeutas e educadores físicos. “O mais importante é entender que o lipedema tem tratamento e controle. Quanto antes a paciente buscar orientação profissional, maiores são as chances de melhorar os sintomas e evitar a progressão da condição”, conclui o médico.

Fonte: Jornal Correio

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