Ana Bia*
Vivemos uma época em que quase tudo pode ser acessado instantaneamente: músicas, vídeos, jogos, histórias e informações. Nossos filhos crescem em um mundo onde o conteúdo está sempre disponível, sempre pronto, sempre ao alcance de um toque. Mas existe algo que não pode ser consumido sob demanda: memória afetiva.
A memória afetiva é construída na repetição dos rituais, nos encontros que acontecem ano após ano, nas tradições compartilhadas e nos momentos que fazem a criança sentir que pertence a algo maior do que ela mesma. Em um estudo publicado na revista científica Family Process, a pesquisadora Barbara Fiese analisou 77 famílias e identificou uma relação positiva entre rituais familiares e o desenvolvimento da identidade e do sentimento de pertencimento entre adolescentes.
Quando pensamos na festa junina, é comum lembrar das bandeirinhas, das comidas típicas, das danças e das brincadeiras. Mas, para as crianças, o que fica não são apenas as imagens da celebração – o que elas realmente levam para a vida são experiências que ajudam a construir sua identidade, fortalecer vínculos e criar memórias afetivas que permanecem por muitos anos.
Quando uma criança veste uma camisa xadrez, ensaia uma dança, ajuda a preparar uma receita típica ou participa de uma celebração em comunidade, ela não está apenas se divertindo. Ela está construindo referências. Está aprendendo que existem histórias antes dela, que existe uma cultura da qual ela faz parte, que existem pessoas com quem ela compartilha memórias.
Além da memória afetiva, a festa junina oferece algo cada vez mais valioso na infância: a experiência de fazer parte de uma comunidade. Ao ensaiar uma apresentação, compartilhar uma refeição típica, conviver com diferentes gerações e participar de uma celebração coletiva, a criança desenvolve senso de pertencimento, cooperação e conexão com suas raízes culturais.
Anos depois, dificilmente ela lembrará de um vídeo específico que assistiu em uma tarde qualquer. Mas provavelmente lembrará do cheiro do milho cozinhando, da música tocando no salão, da expectativa para dançar com os amigos, do colo dos avós, das fotos em família e daquela sensação boa de estar junto. É assim que nascem as memórias que atravessam gerações.
E talvez esse seja um dos maiores desafios da parentalidade atual: não apenas oferecer experiências para os nossos filhos, mas criar tradições – que não precisam ser sofisticadas – e podem estar presentes em uma festa junina em família, em uma receita preparada juntos, em uma noite de histórias ou em um passeio que se repete ano após ano.
São rituais simples, mas carregados de significado, que comunicam à criança uma mensagem poderosa: “Nós pertencemos uns aos outros”. E a relevância desses momentos vai além da percepção das famílias. Uma revisão que analisou mais de 50 anos de pesquisas sobre rituais familiares mostrou que tradições e celebrações recorrentes estão associadas ao fortalecimento dos vínculos familiares, ao desenvolvimento da identidade infantil e a melhores indicadores de adaptação emocional e social das crianças.
Porque, no fim, o que fortalece os vínculos não é a quantidade de estímulos que oferecemos, mas a qualidade da presença que compartilhamos. Em um mundo cada vez mais acelerado, as crianças continuam precisando das mesmas coisas que sempre precisaram: conexão, pertencimento e histórias para lembrar.
E talvez a verdadeira riqueza da festa junina esteja justamente aí. Ela nos lembra que algumas das experiências mais importantes da infância não são aquelas que assistimos, mas aquelas que vivemos juntos.
*Especialista em educação infantil e inclusiva e desenvolvimento de experiências educacionais para crianças. Lidera a frente pedagógica da Kiddle Pass
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”
Fonte: Hoje em Dia







