As discussões sobre os impactos das tecnologias digitais na saúde mental dos estudantes ganharam espaço nas escolas brasileiras. Dados da 16ª edição da pesquisa TIC Educação mostram que oito em cada dez instituições de Ensino Fundamental e Médio promoveram, em 2025, debates sobre o tema, um avanço de 18 pontos percentuais em relação ao ano anterior, quando o índice era de 62%.
Realizado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), o levantamento revela que a preocupação com o uso das tecnologias digitais passou a integrar de forma mais consistente a rotina escolar, envolvendo não apenas estudantes, mas também professores, gestores e famílias.Tudo sobre Educação em primeira mão!Entre no canal do WhatsApp.
Além da saúde mental, cresceram as discussões sobre o uso seguro, crítico e responsável das tecnologias e sobre a inclusão da educação midiática no currículo. Em 2025, 75% dos gestores afirmaram ter realizado reuniões com pais e responsáveis para tratar do uso das tecnologias no ambiente escolar, frente aos 60% registrados em 2024. Já o diálogo com professores e demais profissionais das escolas passou de 68% para 86%.
Para o gerente do Cetic.br, Alexandre Barbosa, esse movimento acompanha as mudanças no cenário regulatório brasileiro.
“A intensificação do debate sobre os impactos das tecnologias digitais no ambiente escolar reflete uma importante mobilização social e pedagógica, impulsionada pelas discussões que resultaram na aprovação do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, o ECA Digital, e pela adoção de novas normas voltadas à garantia de direitos no ambiente digital”, disse.
Apesar do avanço nas discussões, a pesquisa mostra que transformar esse debate em ações permanentes ainda é um desafio. Atualmente, 65% das escolas desenvolvem atividades de educação digital, midiática ou de cidadania digital voltadas aos estudantes. A oferta, no entanto, é desigual, sendo mais frequente em escolas urbanas e naquelas que possuem computadores e acesso à internet para uso pedagógico.
Entre as instituições que já desenvolvem essas iniciativas, 75% apontam a baixa participação das famílias como o principal obstáculo. Também aparecem entre os desafios a escassez de materiais didáticos e recursos educacionais de apoio. Nas escolas que ainda não promovem ações de educação digital, a falta desses materiais é citada por 77% dos gestores como a principal dificuldade.
Celulares ainda dividem as escolas
A pesquisa também evidencia como as instituições têm aplicado as regras previstas pela Lei nº 15.100/2025 e pela Resolução nº 2/2025 do Conselho Nacional de Educação (CNE), que disciplinam o uso de celulares nas escolas. Segundo o levantamento, 51% das escolas não permitem que os estudantes levem aparelhos celulares pessoais para o ambiente escolar.
Nas demais instituições, 40% autorizam a entrada dos dispositivos, mas estabelecem regras para seu armazenamento, seja em mochilas e estojos ou em armários e caixas disponibilizados pelas próprias escolas.
Mesmo com as restrições, entre as escolas que permitem a entrada dos aparelhos, 66% autorizam o uso dos celulares em atividades pedagógicas. Esse percentual é ainda maior nas regiões Norte (76%) e Nordeste (76%), além das áreas rurais (75%), onde limitações de conectividade e infraestrutura tornam os dispositivos pessoais importantes aliados no processo de ensino.
A coordenadora da pesquisa TIC Educação, Daniela Costa, afirma que os resultados evidenciam desigualdades que precisam ser enfrentadas.
“Os dados mostram a necessidade de um olhar atento às desigualdades estruturais, que podem se configurar em desafios à garantia de maior equidade na oferta da educação digital, conforme prevê normativas importantes, como o Plano Nacional de Educação. A integração entre escolas e famílias é outro aspecto essencial para a disseminação da educação digital”, destacou.
Inteligência artificial avança, mas normas ainda são escassas
Pela primeira vez, a pesquisa investigou o uso da inteligência artificial generativa na gestão escolar. O levantamento mostra que 53% dos gestores já utilizam essas ferramentas em atividades administrativas, pedagógicas ou financeiras. Os usos mais frequentes incluem:
- criação de conteúdos visuais e materiais de comunicação (83%);
- elaboração de comunicados (80%) e tradução;
- revisão ou resumo de textos (71%).
Entre os estudantes, o uso da IA em atividades escolares é permitido em 37% das instituições, índice que chega a 47% na rede estadual. Apesar da expansão dessas ferramentas, apenas 22% das escolas possuem orientações formais para o uso da inteligência artificial em atividades de ensino, aprendizagem ou gestão.
Para a coordenadora do CGI.br, Renata Mielli, o avanço das tecnologias exige uma atuação conjunta de diferentes setores da sociedade.
“Construir uma educação digital plena e segura é um desafio estratégico para o país e que precisa ser compartilhado entre os diferentes atores sociais. A escola tem um papel importante e crescente, mas também as famílias e o Estado. Precisamos aprimorar políticas públicas e estabelecer regras para a atuação de plataformas digitais. Regulação e políticas públicas são elementos cruciais para a proteção de crianças e jovens, como aponta o ECA Digital”.
Realizada desde 2010, a pesquisa TIC Educação é uma das principais referências nacionais sobre o acesso e o uso das tecnologias da informação nas escolas brasileiras. A edição de 2025 ouviu gestores de 2.404 escolas públicas e particulares de áreas urbanas e rurais em todo o país, entre agosto de 2025 e abril de 2026.
Fonte: A Tarde







