Quem tem o direito de gerar tamanho desassossego de alma?

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Mauro Condé*

Você liga para contestar R$ 37. A gravação garante que sua chamada é importante. Pede o CPF. De novo. Vêm a data de nascimento … a música … a espera … a transferência.

A ligação cai.

No aplicativo … mandam telefonar. No telefone … mandam voltar ao aplicativo. O código chega vencido. Quando finalmente surge uma voz humana:

– Pode confirmar seu CPF?

Nesse instante … os R$ 37 desaparecem.

Restam quarenta minutos. Não do relógio da empresa. Da única vida que você tem.

A burocracia inútil pratica uma violência discreta: transforma a desorganização de uma empresa em tempo retirado de alguém. Ela preserva seu processo … você paga com existência.

Lendo o livro de Bill Jensen sobre simplicidade … cheguei a uma pergunta que deveria preceder qualquer procedimento: esta etapa protege e resolve algo essencial ou apenas ocupa a vida do cliente?

Segurança exige cuidado. Prevenir fraude exige controle.

Simplificar não é retirar o que protege. É retirar o sofrimento que não protege ninguém.

Afinal … luxo é isso: não acrescentar … mas eliminar. A espera inútil. A repetição. A transferência que transfere só a responsabilidade. A senha pedida pela terceira vez. O formulário que existe porque outro falhou.

Empresas medem duração de chamadas … produtividade … abandono … custo por contato. Mas quase nunca medem o que tomaram de quem estava do outro lado.

Quanto tempo humano custou a solução?

Uma ligação curta que obriga o cliente a voltar três vezes é eficiente apenas para a planilha. Resolver de verdade é devolver alguém à própria vida.

E então a pergunta escapa das empresas.

Nós também mantemos burocracias íntimas: hábitos cujo sentido venceu … compromissos herdados … culpas que continuam cobrando depois de já terem ensinado o que podiam.

Nem toda demora é desperdício. Amar demora. Aprender demora. Cuidar demora. Luto demora. Há minutos que parecem improdutivos e … ainda assim … dão sentido ao resto.

O oposto do desperdício não é pressa.

É sentido.

Foi isso que os R$ 37 me ensinaram.

O dinheiro pode voltar à conta. Os quarenta minutos não voltam a lugar algum.

E … quando algo não pode ser devolvido … gastá-lo exige uma justificativa maior.

Para uma empresa … isso se chama respeito.

Para uma vida … sabedoria.

Desde então … diante de processos … compromissos e escolhas … faço a pergunta que deveria estar escrita dentro de cada um de nós:

Quem tem o direito de gastar o nosso tempo?

*Palestrante … Consultor e Fundador do Blog do Maluco.

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.

Fonte: Hoje em Dia

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