Mauro Condé*
Há atrasos que revelam descuido. Outros carregam uma história que ainda não aprendemos a enxergar.
Imagine a cena: um executivo chega vinte e cinco minutos atrasado a um almoço de entrevista.
Entra mancando … apoiado numa bengala.
O CEO olha o relógio antes de olhar o homem.
Faz sentido … seu novo diretor teria reuniões com presidentes de empresas … e pontualidade importava. O candidato começava mal.
Até que veio a pergunta:
– Qual foi a decisão mais difícil da sua vida?
Ele pousou a mão sobre a bengala.
Anos antes … numa partida de futebol … uma entrada violenta lhe fraturara a perna.
Vieram cirurgias … complicações … outro hospital. A perna inchou e escureceu. Ao redor da cama estavam a esposa … a mãe e o pai … cada um tentando emprestar coragem sem saber de onde tirá-la.
O médico foi claro: a amputação poderia salvar sua vida.
Deu-lhe duas horas para responder.
Ele precisou de três minutos.
– Sim.
Não sabemos quem somos apenas pelo que escolhemos.
Às vezes descobrimos quem somos pelo que aceitamos perder.
É aí que decisões difíceis deixam de parecer enigmas com uma resposta certa.
Quase nunca escolhemos entre o bem e o mal.
Escolhemos entre perdas … valores e futuros que não cabem juntos.
O medo não é o inimigo: ele traz notícias. Coragem é escutá-lo sem lhe entregar sozinho a decisão.
Em “Decisão!” … Noel Tichy e Warren Bennis chamaram atenção para algo semelhante … o julgamento não termina no instante da escolha.
Ele começa na preparação … atravessa a decisão e se prova nas consequências.
Escolher é também aceitar a autoria pelo que vem depois.
Agora troque de lugar com aquele homem. Duas horas.
Uma palavra. Pessoas que você ama observando seu rosto.
O que … em você … seria essencial salvar?
Ao fim do almoço … depois de conhecer sua trajetória e avaliar sua experiência … o CEO voltou ao atraso. Já não via apenas vinte e cinco minutos perdidos. Via alguém que aprendera … da forma mais brutal … a distinguir urgência de consequência.
O candidato foi contratado.
Por quê?
Talvez a lição maior nem seja sobre decidir. Seja sobre julgar.
Todos os dias vemos o atraso antes da bengala … a falha antes da ferida … o comportamento antes da história.
O relógio mede quanto alguém demorou para chegar.
Sabedoria é perguntar por quais caminhos ele precisou passar.
*Palestrante … Consultor e Fundador do Blog do Maluco.
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.
Fonte: Hoje em Dia







