Luzia em chamas, mais de 12 mil anos de História em cinzas!

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Ao meu nariz de Luzia,
Anda Luzia que Oxum vence as brasas.

País queimado, histórias em chamas, poder desgovernado. Há anos vejo matérias e mais matérias falando sobre o abandono e abuso da falta de conservação dos museus no Brasil.

E isso parece ser pouca alerta. Os próprios frequentadores se afastam por insegurança e medo da má conservação, que causam desconforto, insuficiência respiratória pela quantidade do mofo, risco de choque elétrico ou falta de segurança. E ainda há aqueles que entram para fazer simonia ou roubar peças, nos deixam perplexos a quem tem respeito pela sua ancestralidade. O que acontece com o Museu Nacional no Rio de Janeiro nos causa angústia, tristeza e nos faz questionar órgãos importantes com pessoas competentes, os quais prostrados e incrustrados nos seus cargos não tomam passos mais radicais em relação a isso.

Não falo de uma forma pessoal, falo que eles também podem estar atados em decisões políticas que nunca se resolvem. Sou baiano, sou da Bahia e busco e idealizo um museu há mais de 10 anos. Também sem nenhum apoio, vejo o Mercado do Ouro uma ex-Cracolândia, abrigos e abandono. Sob os meus cuidados, está ali um lugar que vendeu e comprou escravos e teve importância no desenvolvimento da cidade, e o meu desejo é que encontre o seu caminho na luz.

Não admito como cidadão ver órgãos como administradores de ruínas. Tudo que se quer fazer em torno de cuidados, as autoridades buscam sempre um jeito de dizer não, sempre um jeito de imaginar-se que está errado, tirando os incentivos daqueles que buscam qualquer forma de preservação.

A arquitetura ganha um caminho de extrema positividade no mundo onde é possível preservar e misturar com novas formas. A Bahia precisa se atentar para isso, que é necessário se adequar às ideias de arquitetos competentes, claro, com cuidado, porque não é para destruir a História, mas anadir uma nova História.

É importante o Brasil perceber que seus acervos não pertencem só a nós, pertence às Histórias do mundo, e que desastres como esse do Museu Nacional não venham mais se repetir. Podemos aprender com a brigada de incêndio do Louvre, do Moma, do Reina Sofia e de outros museus importantes do mundo que se adequam.

Não vamos nos esquecer que isso aconteceu em São Paulo no Museu da Língua Portuguesa e esse descaso continua acontecendo em todo o país. Como músico e embaixador de Cultura Íbero- Americana, me coloco à disposição não apenas para criticar, mas para encontrar soluções diante de pessoas que acredito que têm competência para fazê-lo, mas que estão engessadas na ideia de que preservar é dar características de que a História é ultrapassada.

A História se constrói e a cada ano ela amadurece e faz aniversário com o mundo.

Profundo abalo. Era o meu desejo fazer uma grande pesquisa no Museu Nacional, pois sou bisneto de Augusto Teixeira de Freitas, um dos juristas da América Latina que colaborou muito na existência dele. Ali eu buscava a minha História – que pena que se perdeu e mais uma vez me sinto queimado diante da preservação inexistente do olhar do outro que lêem livros de outras esquinas e não percebem que está em construção de si mesmo.

Um país do futuro não se importa assim com seu passado. A negligência de sempre, a falta de manutenção, afunda o Brasil e sua memória.

Falta água no hidrante, falta planejamento, falta atenção e sobra quem pode dar soluções técnicas que não são ouvidas.
Me manifesto em luto e em solidariedade pela tragédia do Museu Nacional.

Luzia em chamas, mais de 12 mil anos de História em cinzas. Lágrimas não apagam fogo!

* Carlinhos Brown é cantor, percussionista, compositor e produtor baiano

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