René Dentz*
A cultura contemporânea parece ter produzido um fenômeno curioso: adultos biologicamente maduros, mas emocionalmente incapazes de sustentar frustração, contradição ou silêncio. Basta observar as redes sociais. Pequenas discordâncias tornam-se guerras morais. Críticas simples são vividas como agressões intoleráveis. Relações afetivas são rompidas ao primeiro desconforto. A sociedade da hiperexpressão criou sujeitos que falam o tempo inteiro sobre si, mas raramente suportam escutar algo que os desagrade. Existe uma infantilização emocional silenciosa atravessando nosso tempo.
A psicanálise percebe há muito que amadurecer não significa apenas crescer cronologicamente. Tornar-se adulto implica aprender a lidar com falta, limite, espera e frustração. Implica reconhecer que o outro não existe para confirmar continuamente nossa imagem idealizada. Entretanto, a lógica digital opera na direção oposta: ela alimenta reações imediatas, gratificação instantânea e validação constante.
O sujeito contemporâneo desaprendeu a esperar. Tudo precisa ser rápido: respostas, reconhecimento, amor, sucesso, prazer. Quando a realidade impõe demora, ambiguidade ou fracasso, muitos entram em colapso emocional. Não porque sejam fracos, mas porque foram treinados por uma cultura que transformou desconforto em escândalo e limite em violência simbólica.
As redes sociais intensificam esse processo. Elas recompensam impulsividade, indignação e teatralização afetiva. Quanto mais extrema a reação, maior a visibilidade. O problema é que, pouco a pouco, a vida psíquica começa a funcionar segundo a lógica do algoritmo: tudo deve ser imediato, intenso e constantemente validado pelo olhar do outro.
Nesse cenário, cresce uma geração de adultos que não suporta ser contrariada. Pessoas que confundem crítica com perseguição, discordância com ataque pessoal e frustração com trauma. A menor experiência de rejeição torna-se motivo de exposição pública, cancelamento ou ressentimento permanente. Há algo profundamente infantil nisso. A criança deseja um mundo sem falta.
O amadurecimento começa justamente quando o sujeito descobre que nem tudo será como deseja. A vida adulta nasce da capacidade de suportar o real sem destruir o outro – ou destruir a si mesmo.
Talvez por isso exista hoje tanta dificuldade de vínculo. Relações humanas exigem tolerância ao imperfeito. Exigem escuta, elaboração e permanência. Mas a cultura contemporânea oferece uma alternativa sedutora: substituir pessoas por performances emocionais rápidas e descartáveis. Vive-se cercado de conexões e vazio.
O paradoxo é evidente: nunca se falou tanto sobre saúde emocional, mas talvez nunca tenhamos produzido sujeitos tão fragilizados diante da contrariedade cotidiana. Isso não significa defender frieza emocional ou desprezar sofrimentos reais. Há dores legítimas que precisam ser acolhidas. O problema surge quando toda experiência desagradável passa a ser interpretada como intolerável. Uma sociedade incapaz de suportar pequenas frustrações torna-se facilmente agressiva, ressentida e manipulável.
Amadurecer continua sendo uma tarefa difícil. Talvez mais difícil hoje do que em outras épocas. Porque exige sustentar profundidade em uma cultura treinada para superficialidade instantânea. No fundo, crescer emocionalmente talvez seja justamente isto: descobrir que nem sempre seremos compreendidos, admirados ou satisfeitos – e ainda assim continuar capazes de amar, dialogar e permanecer humanos.
*Psicanalista, Pós-Doc pela Freiburg Universität, na Suíça, Professor de Filosofia da PUC-Minas, Autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025, Comentarista da Rádio Itatiaia e Pai da Sofia e da Beatriz.
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.
Fonte: Hoje em Dia







