Câmara paraguaia aprova seguir com processo de impeachment do presidente do Paraguai, mesmo após renúncia

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Santiago Penã anuncia renúncia — Foto: Reprodução/X

A Câmara de Deputados do Paraguai aprovou nesta quinta-feira (5) dar seguimento do processo de impeachment do presidente do país, Santiago Peña.

Os deputados também rejeitaram a carta de renúncia apresentada por Peña — a Constituição paraguaia estabelece que é prerrogativa do Congresso aceitar ou rejeitar a renúncia do presidente da República e a do vice-presidente.

Mais cedo, ele havia renunciado ao cargo, em meio à crise bancária do país (leia mais abaixo).

Os deputados aprovaram por unanimidade a abertura do processo de impeachment após forte pressão da oposição, com o intuito de evitar que Peña mantivesse o foro privilegiado.

Isso porque o artigo 189 da Constituição paraguaia garante um cargo vitalício de senador, sem poder de voto, mas com a garantia de imunidade parlamentar. Esse cargo, no entanto, é cancelado no caso de o presidente sofrer impeachment.

A oposição acredita, portanto, que a renúncia foi uma manobra de Peña para evitar o impeachment e, com isso, manter a imunidade parlamentar.

Antes de aprovar seguir com o processo de Peña, os deputados paraguaios rejeitaram abrir um processo de impeachment também para seu vice, Pedro Alliana, pedindo pela oposição. A rejeição blinda o vice-presidente abre caminho para que Alliana assuma a presidência do país.

Ele deve assumir o cargo ainda nesta quinta-feira, durante uma sessão extraordinária da Câmara e do Senado, em que os legisladores devem votar o impeachment de Santigo Peña.

Renúncia

O presidente paraguaio anunciou sua renúncia nesta quinta-feira após ficar isolado por conta da crise bancário. Ele é acusado pela oposição de ter sido conivente com a quebra do banco digital Ueno, que bloqueou a conta de milhares de correntistas e do qual o presidente foi acionista (leia mais abaixo).

Em um vídeo, o presidente se desculpou com a população que perdeu o acesso ao próprio dinheiro e disse que decidiu renunciar “pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas”.

“Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai. Também quero pedir desculpas ao povo. Se em algum momento falhei, nunca foi minha intenção decepcionar a confiança que depositaram em mim”, disse.

Nesta manhã, o Congresso do Paraguai havia inciado uma sessão extraordinária para debater o pedido de impeachment, e todas as bancadas da Câmara dos Deputados anunciaram que votariam a favor do impeachment.

A iniciativa que ganhou força após o Horário Cortes, atual presidente do Partido Colorado, sigla de Peña, retirar o apoio ao governo. Cortes é considerado o mentor de Peña. O presidente do Congresso, Basilio Nuñez, do Partido Colorado, também havia retirado apoio.

Economista conservador, Santiago Peña assumiu o governo do Paraguai em 2023 e seu mandato duraria até 2028. Seu vice, Pedro Alliana, assume o poder, mas ele também é alvo do processo de impeachment.

Peña era aliado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e integrava o Escudo das Américas, grupo de presidentes de países da América Latina ideologicamente alinhados a Trump. No entanto, Peña também tinha boa relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Santiago Peña, economista e ex-ministro da Fazenda durante o governo de Cartes, é o atual candidato presidencial do Colorado — Foto: REUTERS

Santiago Peña, economista e ex-ministro da Fazenda durante o governo de Cartes, é o atual candidato presidencial do Colorado — Foto: REUTERS

Acusação

Clientes do banco Ueno fazem protesto em Assunção, no Paraguai, em 5 de novembro de 2026. — Foto: Daniel Duarte/ AFP

Clientes do banco Ueno fazem protesto em Assunção, no Paraguai, em 5 de novembro de 2026. — Foto: Daniel Duarte/ AFP

A crise bancária começou após o banco digital Ueno fechar as portas e deixar milhares de clientes sem acesso ao próprio dinheiro.

A oposição também acusa Peña de conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários, entre outros pontos. A acusação também aponta que o banco central teria encoberto irregularidades.

Santiago Peña, que também é economista, foi acionista do grupo proprietário do Ueno até março do ano passado. O banco tinha cerca de 3 milhões de clientes e concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social.

Deputado da oposição no Paraguai segura cartaz em ato que pede impeachment do presidente Santiago Peña após fechamento de banco virtual que gerou crise bancária no país, em 5 de novembro de 2026. — Foto: Cesar Olmedo/ Reuters

Deputado da oposição no Paraguai segura cartaz em ato que pede impeachment do presidente Santiago Peña após fechamento de banco virtual que gerou crise bancária no país, em 5 de novembro de 2026. — Foto: Cesar Olmedo/ Reuters

O Ueno, que pertence ao Grupo Vázquez, fechou as portas na terça-feira (3), depois que o banco central iniciou sua liquidação. A autoridade monetária identificou uma insuficiência de recursos para cobrir as obrigações do banco, relacionada a empréstimos concedidos a empresas vinculadas à instituição.

Em uma publicação em suas redes sociais, o presidente paraguaio afirmou que os responsáveis pelas irregularidades responderão à Justiça, sem exceções. A declaração foi feita pouco antes de que ele promulgasse uma lei que permitirá aos clientes do Ueno recuperar seu dinheiro mais rapidamente.

“Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”, afirmou.

Pessoas fazem fila para tentar retirar dinheiro em banco em Assunção, no Paraguai, diante de temor gerado por crise bancária no país, em 3 de novembro de 2026. — Foto: Daniel Duarte/ AFP

Pessoas fazem fila para tentar retirar dinheiro em banco em Assunção, no Paraguai, diante de temor gerado por crise bancária no país, em 3 de novembro de 2026. — Foto: Daniel Duarte/ AFP

Executivos do Ueno se entregaram às autoridades após a emissão de mandados de prisão pela Procuradoria, que também acusou formalmente 27 pessoas ligadas ao banco. A Justiça ordenou ainda o bloqueio dos bens dos acusados.

Na quarta-feira (4), também circularam relatos de falhas em aplicativos de outros bancos, o que aumentou a preocupação com o sistema financeiro do país.

A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que as instituições financeiras trabalhavam para atender ao grande volume de clientes que estavam transferindo suas contas do Ueno. A entidade ressaltou que o sistema bancário continuava “operando normalmente”.

Fonte: Portal G1 Mundo

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