Estudo revela que mais de 8,2 milhões de jovens já usam IA como apoio emocional e acende alerta entre especialistas

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IA vira confidente de 1 em cada 2 jovens Crédito: SHVETS Production / Pexels

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta para estudar, trabalhar ou tirar dúvidas rápidas. Para milhões de jovens, chatbots como ChatGPT, Gemini e similares já funcionam como espaço de desabafo e “psicólogos artificiais”.

Esse movimento acaba esbarrando em dois fatores sensíveis: a crise de saúde mental entre jovens e a facilidade de conversar com uma máquina sempre disponível, que responde sem cobrança.

IA confidente

Uma pesquisa Ipsos BVA encomendada pela CNIL e pelo Grupo VYV ouviu 3.800 jovens de 11 a 25 anos na França, Alemanha, Suécia e Irlanda. O levantamento mostrou que quase metade já usa IA para falar de temas pessoais ou íntimos.

Segundo a Reuters, 51% dos entrevistados disseram achar “fácil” falar de saúde mental e questões pessoais com um chatbot. O índice ficou acima dos 37% que disseram o mesmo sobre psicólogos.

Segundo o levantamento, amigos e pais ainda têm índices maiores, mas a IA assumiu um nicho muito elevado. Disponível 24 horas, com respostas rápidas e sem julgamento aparente, ela pode parecer mais segura para quem tem vergonha de se abrir.

Uma revisão publicada na revista Computers in Human Behavior: Artificial Humans aponta que as pessoas criam relações de confiança com sistemas de IA generativa mesmo quando a tecnologia tem baixa transparência e pouca previsibilidade.

O pesquisador Riccardo Volpato, da Universidade de Glasgow, resumiu bem o efeito: “Eles criam para as pessoas a experiência subjetiva de se comunicar com uma entidade semelhante a um humano”, disse à Veja.

Uso crescente

Nos Estados Unidos, um estudo publicado no JAMA Pediatrics mostrou que 19,2% dos jovens de 12 a 21 anos já usaram chatbots de IA para pedir conselhos ou ajuda ao se sentirem tristes, nervosos, irritados ou estressados.

O número representa cerca de 8,2 milhões de jovens. Além disso, 42,8% dos usuários relataram recorrer a esse tipo de apoio pelo menos uma vez por mês, enquanto 91,7% avaliaram as respostas como úteis.

O dado mais delicado aparece na privacidade. Entre os jovens que usam IA para conselhos de saúde mental, 63,3% não contam isso a ninguém. Ou seja, pais, médicos e professores podem nem saber que a ferramenta está sendo utilizada para esse propósito.

Quando a ajuda pode virar risco

O problema começa quando o chatbot deixa de ser um apoio pontual e passa a ocupar o lugar de relações humanas ou de cuidado profissional. Em casos de sofrimento intenso, isolamento ou risco, essa substituição pode retardar o tratamento necessário.

O próprio estudo do JAMA Pediatrics alerta que a sensação de utilidade das respostas pode refletir uma tendência dos chatbots de validar ou bajular o usuário, e não necessariamente a qualidade do aconselhamento oferecido.

Uma resposta acolhedora nem sempre é uma boa resposta. Em saúde mental, cuidado não é apenas concordar. Muitas vezes, envolve identificar risco, fazer perguntas difíceis e encaminhar para atendimento, segundo o estudo

Uma resposta acolhedora nem sempre é uma boa resposta. Em saúde mental, cuidado não é apenas concordar. Muitas vezes, envolve identificar risco, fazer perguntas difíceis e encaminhar para atendimento, segundo o estudo Crédito: Aviz Media / Pexels

Jovens distinguem melhor a IA em temas graves

Um estudo apresentado na CHI Conference on Human Factors in Computing Systems também avaliou a situação. A pesquisa ouviu 622 jovens e comparou respostas humanas e geradas por IA em situações de apoio entre pares.

Os participantes preferiram respostas de IA em temas como relacionamento, autoexpressão e saúde física. No entanto, quando o assunto era sensível, como pensamentos suicidas, eles preferiram respostas humanas.

A IA pode parecer eficiente para problemas cotidianos, mas o cuidado humano continua tendo peso maior quando a conversa envolve risco, vulnerabilidade ou sofrimento mais profundo

A IA pode parecer eficiente para problemas cotidianos, mas o cuidado humano continua tendo peso maior quando a conversa envolve risco, vulnerabilidade ou sofrimento mais profundo Crédito: Czapp Árpád / Pexels

Brasil nessa tendência

No Brasil, a busca por apoio emocional em IA também avança. Pesquisa da consultoria Talk Inc. apontou que 58% dos 1.200 entrevistados adultos já usaram IA para resolver questões emocionais.

A cultura digital brasileira acaba auxiliando nessa adesão. O país tem forte hábito de conversa por aplicativos, uso massivo de WhatsApp e familiaridade com mensagens de áudio, texto e respostas instantâneas.

Somos um dos maiores usuários de WhatsApp do mundo, e isso tem relevância quando pensamos em chatbots de IA, pois indica que temos um tipo de comportamento mais conversaciona

Carla Mayumida Talk Inc. à Veja

Fonte: Jornal Correio

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