O preço da precipitação para o varejo

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Imagem gerada por IA (ChatGPT).

O calor eleitoral tem como uma de suas características conhecidas a concentração de atenção no que rende votos e deixa em segundo plano o que pode comprometer o futuro.

A sequência de benesses sendo concedidas no calor da eleição vai gerar consequências complexas para a Nação. Muitas levantadas e avaliadas e outras tantas apenas supostas.

Algumas decisões podem até produzir dividendos políticos imediatos, enquanto seus custos econômicos e sociais se manifestam ao longo do tempo, envolvendo menor desenvolvimento econômico, aumento de custos e inflação, perda de competitividade, fechamento de empresas e crescimento da informalidade.

O açodamento na decisão da mudança da escala de trabalho, sem ampla e profunda discussão de seus impactos diretos nos diferentes segmentos econômicos, regiões, portes de empresa, canais e modelos de negócio, é um exemplo marcante que ficará para a história.

É legítima e necessária a busca por mais qualidade de vida para os trabalhadores, mas a questão é ignorar consequências sobre custos, produtividade, contratação, preços e competitividade.

Boa intenção não pode ser confundida com alienação.

No varejo, nos serviços, no agro e na indústria de bens de consumo, o desafio é particularmente complexo.

O custo adicional da mão de obra não se limita à eventual contratação de mais pessoas para manter o funcionamento das operações, pois envolve escalas, horas trabalhadas, cobertura de horários, treinamento, gestão e produtividade, num cenário em que cresce a competição com os canais digitais.

Para setores com atividades intensivas em pessoas, como o varejo e os serviços, com funcionamento prolongado e margens pressionadas, a conta será especialmente pesada.

O primeiro e mais básico efeito será o aumento da pressão sobre a rentabilidade e a revisão dos modelos operacionais. O segundo, a aceleração da automação potencializada pela IA e a redução de postos de trabalho em determinadas atividades. O terceiro envolve a realística perspectiva de aumento da informalidade em negócios que já operam no limite de sua capacidade econômica.

Vale destacar que a informalidade no emprego no Brasil tem exatamente o mesmo percentual de 40,9% nos períodos de jul./ago./set. de 2016 e de jun./jul./ago. de 2026, segundo os dados apurados na PNAD Contínua mensal, divulgada pelo IBGE, e envolve trabalhadores sem carteira assinada, os que atuam por conta própria sem CNPJ, empregadores sem CNPJ, trabalhadores familiares auxiliares e trabalhadores do setor público sem carteira assinada.

Como pode ser observado no gráfico, houve alguns momentos de leve aumento, mas a informalidade está hoje nos exatos mesmos patamares de dez anos atrás. Porém, temos agora o menor índice de desemprego da série histórica desse índice.

Pequeno varejo merece atenção especial

Esse setor terá pela frente um período dos mais complexos por operar em menor escala, com menos recursos para automação, menor poder de negociação com fornecedores e maior dificuldade para absorver custos adicionais. E, ao mesmo tempo, também se defronta com um consumidor cada vez mais orientado por valor, que compara preços, seleciona compras, troca de marcas e canais em busca de mais por menos, por absoluta contingência do momento e considerando que está particularmente endividado.

Como resultado, a perspectiva é de que os custos aumentem e os preços, não podendo acompanhar essa elevação, pressionem ainda mais a margem, tornando muitos pequenos negócios inviáveis. E isso também levará ao aumento da informalidade econômica.

Esse cenário deverá aumentar a concentração empresarial, com vantagem para organizações com maior escala, capacidade tecnológica e poder de negociação. Negócios menores poderão reduzir equipes, abandonar operações, migrar para formatos menos intensivos em mão de obra ou simplesmente fechar as portas. A informalidade, nesse contexto, deixa de ser apenas um problema de fiscalização e passa a refletir também as dificuldades econômicas de sustentar a formalização.

E esse movimento poderá ocorrer simultaneamente à implantação da reforma tributária, com todas as suas dúvidas e implicações.

A transição para o novo sistema exigirá das empresas revisão de processos, sistemas, formação de equipes, gestão de créditos tributários, contratos e capital de giro. Os efeitos financeiros dependerão do setor, do modelo de negócio, da estrutura de fornecedores e clientes e das regras efetivamente aplicáveis. As definições e revisões de prazos não permitem afirmar quanto, de fato, será o aumento efetivo da carga tributária para todas as empresas, mas é preciso reconhecer que a transição poderá impor custos operacionais e necessidades adicionais de caixa, além de mudar posições competitivas de mercado entre atividades e modelos de negócio.

Para empresas com margens estreitas, qualquer descompasso entre recolhimentos, apropriação de créditos e recebimentos pode ser relevante. Para as menores, a capacidade de financiar essa adaptação é muito mais limitada.

Temos, portanto, três forças que precisam ser analisadas em conjunto, envolvendo pressão sobre o custo do trabalho, consumidor resistente a aumentos de preços e iminente adaptação a um novo sistema tributário.

Separadamente, cada uma já exigiria atenção estratégica. Combinadas, podem acelerar transformações estruturais no varejo, nos serviços e nas cadeias de abastecimento.

E, na pressão eleitoral, o debate público tratou cada medida isoladamente, sem considerar seus efeitos acumulados sobre a sobrevivência dos negócios, o emprego formal, a concorrência e a capacidade de investimento.

Não se propõe a imobilidade, rejeitar avanços nas relações de trabalho ou questionar a necessidade de uma reforma tributária. Muito pelo contrário. São movimentos estratégicos e necessários. Mas é preciso que mudanças dessa dimensão sejam acompanhadas de avaliações de impacto, transições realistas, ganhos de produtividade, simplificação operacional e mecanismos que evitem penalizar desproporcionalmente os negócios, em especial os de pequeno porte.

Reflexão final

O Brasil precisa superar a lógica de decisões orientadas pelo calendário eleitoral e construir uma visão integrada de desenvolvimento. Governo, Congresso, setor privado e trabalhadores têm responsabilidades distintas, mas compartilham o interesse na expansão do emprego formal, no aumento da renda e da produtividade e na sustentabilidade dos negócios.

O que não está sendo discutido agora pelo afogadilho das decisões às vésperas das eleições cobrará seu preço de toda a sociedade, dadas as consequências que irá produzir em sua implantação.

E, mais uma vez, passaremos um bom período futuro tentando remendar o que foi mal planejado, feito de forma intempestiva e quase inconsequente, com danos ainda maiores para os setores e segmentos mais vulneráveis, em especial os trabalhadores, que serão ainda mais pressionados pelo inevitável aumento da inflação, com reflexos na impossibilidade de redução das taxas de juros.

O dano está configurado e agora a questão é buscar caminhos e alternativas para absorver seu impacto e, nas discussões da forma de implantação, tentar minorar os danos da inconsequência perpetrada.

Ao invés de construir o futuro, ficaremos mais um tempo corrigindo os desatinos do passado.

Vale refletir.

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.

Fonte: Mercado&Consumo

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