Pediatras esclarecem que a obesidade infantil envolve aspectos genéticos, metabólicos e comportamentais

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Obesidade infantil vai além da alimentação: pediatras explicam fatores que influenciam o ganho de peso Crédito: Marcelo Casall Jr/Agência Brasil

A obesidade infantil não pode ser explicada apenas pelo excesso de comida ou pela falta de disciplina. Embora a alimentação tenha papel importante no desenvolvimento físico, o ganho de peso resulta da interação de fatores biológicos, comportamentais, ambientais e sociais. Por isso, o cuidado com crianças que apresentam excesso de peso exige uma avaliação ampla, sem julgamentos ou estigmas.

A médica de família e comunidade Aline Magalhães, da UBS Jardim Santa Margarida, unidade da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP) gerenciada pelo CEJAM (Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”), explica que, na maioria dos casos, a obesidade infantil está relacionada à combinação entre predisposição genética e ambiente em que a criança vive.

De acordo com diretrizes da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), causas endócrinas primárias, como hipotireoidismo e síndrome de Cushing, além de síndromes genéticas raras, correspondem a menos de 5% dos diagnósticos.

O cotidiano familiar, a duração e a qualidade do sono, o tempo de exposição às telas, o acesso a alimentos in natura e as oportunidades para praticar atividades físicas também estão relacionados à regulação metabólica. “Associar a obesidade infantil apenas ao excesso alimentar ou à vontade individual é um equívoco que gera estigmas e atrapalha o cuidado adequado. A condição envolve a genética, a biologia e as oportunidades do meio em que a família vive. Quando olhamos para a criança e seus responsáveis sem julgamentos, conseguimos construir um acompanhamento respeitoso e efetivo”, explica Aline.

Crescimento em altura também merece atenção

Diferenciar o ganho de peso comum de condições que exigem investigação específica depende de uma avaliação cuidadosa do desenvolvimento físico. Um dos principais indicadores observados pelos profissionais não é apenas o número registrado na balança, mas a velocidade de crescimento em altura ao longo do tempo.

Segundo a médica, nos casos mais frequentes de obesidade multifatorial, a criança costuma manter ou até acelerar o crescimento linear, apresentando estatura adequada ou acima da média para a idade. Já a interrupção do crescimento em altura ou a baixa estatura associada ao ganho rápido de peso pode ser um sinal de alerta. Nesses casos, é importante investigar possíveis causas endócrinas ou genéticas.

Preconceito também afeta a saúde da criança

Os aspectos emocionais e o ambiente social também fazem parte do cenário da obesidade infantil. Embora não se possa presumir que toda criança com excesso de peso tenha ansiedade ou episódios de compulsão alimentar, o estigma relacionado ao corpo, tanto na escola quanto no ambiente familiar, pode prejudicar o bem-estar.

“O preconceito e os comentários depreciativos aumentam o estresse, o que muitas vezes afeta a relação com a comida e a autoestima. Por isso, a abordagem em saúde deve contemplar a rotina global da família, considerando determinantes socioeconômicos e o acesso a um estilo de vida saudável de forma acolhedora”, destaca Aline.

A avaliação profissional deve considerar a trajetória de crescimento da criança ao longo do tempo e o histórico familiar. A especialista ressalta que não há indicação para realizar exames hormonais de rotina em todas as crianças com excesso de peso. A investigação deve seguir critérios clínicos, seja para verificar possíveis repercussões metabólicas, como alterações na glicemia e no perfil de lipídios, seja para apurar hipóteses identificadas durante a consulta.

Acompanhamento deve envolver toda a família

O cuidado profissional busca orientar as famílias sem recorrer a dietas restritivas ou metas rígidas de peso, estratégias que podem comprometer o crescimento e favorecer transtornos alimentares. A atenção deve se concentrar na construção gradual de hábitos protetores, como estimular brincadeiras e atividades físicas, melhorar a qualidade do sono e cuidar do padrão das refeições de toda a família. A proposta é promover mudanças possíveis e sustentáveis, respeitando as necessidades de cada criança.

“Notar mudanças aceleradas no ganho de peso ou alterações no crescimento da criança é um motivo importante para procurar a Unidade Básica de Saúde. A atuação de uma equipe multiprofissional permite acolher a família, fortalecer a autoestima da criança e prevenir complicações de saúde ao longo da vida, sempre com base no respeito e no cuidado integral”, propõe a especialista.

Fonte: Jornal Correio

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