Fígado pode estar doente mesmo com exames aparentemente normais; entenda o risco Crédito: Shutterstock
A gordura no fígado, conhecida como esteatose hepática, muitas vezes é descoberta por acaso em exames de imagem e acaba sendo tratada como um achado sem importância. No entanto, a condição pode evoluir silenciosamente e comprometer o funcionamento do órgão.
O cirurgião bariátrico César De Fazzio, diretor do Instituto de Cirurgia Digestiva (ICD), em Brasília, alerta que pessoas com obesidade também precisam estar atentas à saúde dos rins, que podem sofrer danos sem apresentar sinais evidentes nas fases iniciais. “O diagnóstico de dano hepático virou quase rotina no consultório, e o mais preocupante é que o paciente costuma chegar sem saber que tem a condição e, quando já ouviu falar dela, não dimensiona a gravidade”, afirma o médico.
Quando persiste, a esteatose pode evoluir para esteato-hepatite, caracterizada pela inflamação do fígado, e avançar para fibrose e cirrose. Isso pode ocorrer inclusive em pessoas que nunca consumiram bebidas alcoólicas e não têm hepatite viral. Um dos desafios é que o fígado tem grande capacidade funcional e pode continuar trabalhando mesmo diante de lesões progressivas.
Além disso, as alterações nem sempre provocam dor, e as enzimas hepáticas podem permanecer normais mesmo quando a doença já está estabelecida. O ultrassom convencional identifica o acúmulo de gordura, mas não determina com precisão o grau de fibrose. Nos rins, a creatinina, exame frequentemente utilizado para avaliar a função renal, também pode não identificar precocemente todos os danos. Segundo De Fazzio, quando os sintomas aparecem, a doença pode já estar em estágio avançado.
Como a cirurgia bariátrica pode ajudar
Na avaliação para cirurgia bariátrica e metabólica, o médico afirma que considera outros fatores além dos exames de rotina. Quando há suspeita de comprometimento hepático, pode ser realizada uma biópsia durante a cirurgia para avaliar o grau de inflamação e fibrose. “Já fiz diagnóstico de cirrose inicial no intraoperatório em paciente cujo exame de imagem prévio indicava apenas esteatose grau 3”, relata.
Segundo o especialista, algumas mudanças metabólicas podem ocorrer nas primeiras semanas após a cirurgia, antes mesmo de uma perda de peso expressiva. Nesse período, pode haver redução da gordura acumulada no fígado e melhora da resposta à insulina. A recuperação estrutural do tecido, porém, tende a levar mais tempo e depende da evolução do paciente. “O alívio metabólico sobre os dois órgãos começa antes da perda de peso expressiva, mas a reconstrução estrutural do tecido, que é o que de fato muda o prognóstico, depende do emagrecimento mantido e do tempo de acompanhamento”, explica De Fazzio.
O que mostram os estudos
Pesquisas citadas pelo médico apontam resultados favoráveis da cirurgia bariátrica em pacientes com esteato-hepatite. Um estudo francês publicado na revista Gastroenterology, em 2020, acompanhou pacientes operados por meio de biópsias. Após cinco anos, 84% apresentaram resolução da esteato-hepatite sem piora da fibrose. A fibrose diminuiu em cerca de 70% dos participantes e desapareceu em 56%.
Já um ensaio clínico italiano publicado na revista The Lancet, em 2023, acompanhou 288 pacientes. Após um ano, a resolução da esteato-hepatite ocorreu em 56% dos participantes submetidos ao bypass gástrico e em 57% daqueles que fizeram gastrectomia vertical. No grupo que recebeu tratamento clínico e orientação sobre estilo de vida, o índice foi de 16%.
Os rins também podem se beneficiar das mudanças metabólicas associadas à cirurgia. A obesidade aumenta a sobrecarga de filtração renal, especialmente quando está associada ao diabetes e à hipertensão. Após a cirurgia, a pressão dentro das unidades responsáveis pela filtração pode diminuir, assim como a quantidade de albumina eliminada na urina.
Um ensaio clínico brasileiro publicado na revista JAMA Surgery, em 2020, avaliou pacientes com diabetes, índice de massa corporal (IMC) entre 30 e 35 e doença renal inicial. Em 24 meses, a remissão da albuminúria foi registrada em 82% dos participantes operados, contra 55% daqueles que receberam tratamento clínico.
Exames ajudam a identificar danos precocemente
De Fazzio recomenda que pessoas com obesidade avaliem a saúde do fígado e dos rins periodicamente, com exames definidos conforme a avaliação médica. Para investigar alterações hepáticas, podem ser utilizados ultrassom e exames de sangue, além da elastografia quando indicada. No caso dos rins, a avaliação pode incluir creatinina acompanhada da taxa de filtração glomerular estimada e da relação albumina/creatinina na urina. Esse último exame pode identificar sinais de lesão renal antes que a pessoa apresente sintomas.
“A janela é mais ampla do que a maioria imagina, mas não é eterna”, afirma o médico. Segundo ele, a esteatose e a esteato-hepatite podem regredir com tratamento adequado, e até mesmo a fibrose avançada pode apresentar melhora. Na doença renal, a perda de albumina também pode ser revertida em alguns casos, mas unidades de filtração que já sofreram cicatrização podem não recuperar sua função.
Por isso, a ausência de sintomas não deve ser motivo para deixar de investigar possíveis alterações. Para o especialista, compreender os efeitos da obesidade sobre diferentes órgãos ajuda o paciente a entender a importância do acompanhamento e das opções de tratamento. “Quando ele entende que a cirurgia está tratando fígado, rim, coração e pâncreas, e não apenas o peso na balança, a conversa muda completamente de patamar”, conclui De Fazzio.
Fonte: Jornal Correio







