Por Mauro Condé*
“A morte é apenas a curva da estrada.”… Fernando Pessoa
Naquele dia… cansados de ver o velho avô… que já tinha muita idade… tremer as mãos e deixar a comida cair da boca quando estavam à mesa… filho e nora irritados decidiram tomar uma atitude.
No dia seguinte… o filho do velho apareceu em casa com uma tigela de madeira.
E ordenou ao pai que… a partir dali… passasse a comer sentado na soleira da porta… para sujar menos e ser mais fácil de limpar e não mais irritar a nora cansada de limpar tantas toalhas e guardanapos sujos pelo velho.
E assim foi… dia após dia… tremendo e sozinho na soleira da porta… o velho levava a comida à boca… conforme lhe era possível… metade perdia-se pelo caminho… uma parte da outra metade escorria-lhe pelo queixo abaixo e só muito pouco descia pelo canal da sopa.
O neto… de oito anos… olhava tudo… silenciosa e atentamente… como se não tivesse nada a ver com o caso.
Até que uma tarde… ao regressar do trabalho… o pai flagra o filho a trabalhar com uma navalha um pedaço de madeira e pergunta:
– Que estás a fazer?
O filho… sem levantar a vista da operação responde:
– Estou a fazer uma tigela para quando o pai for tão velho como o avô e com as mãos tremendo… o mandarem comer na porta da soleira.
Acabo de voltar de uma viagem rumo ao conhecimento usando como meio de transporte excelentes livros de escritores que venceram o Prêmio Nobel.
Eles me levaram para uma um país indeterminado… onde fui recebido pelo escritor José Saramago… a quem fui logo pedindo:
Ensina-me algo que eu ainda não saiba e tenha o poder de mudar a minha vida para melhor.
– O sentido da vida não está em escapar da morte… está em viver de um modo que… quando ela vier… encontre alguém que realmente esteve vivo.
O trecho da família citado acima foi extraído do livraço “As Intermitências da Morte”, de Saramago, que acabo de ler e te recomendo.
Num país sem nome… a morte decide suspender o seu ofício: ninguém mais morre.
O que parece bênção revela-se desastre social… político e moral.
Entre cartas lilases e estratégias humanas para contornar o inevitável… a própria morte se aproxima de um homem e… ao conhecê-lo… descobre a hesitação.
No fim… percebe-se que viver eternamente é menos humano do que amar sabendo que se há de morrer.
* Palestrante, consultor e fundador do Blog do Maluco.
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião”
Fonte: Hoje em Dia







